A perda da maioria republicana na Câmara dos Representantes e no Senado dificulta a aprovação das propostas de Donald Trump dentro dos Estados Unidos. Mas a vitória democrata nas duas Casas não significa que o presidente perdeu a capacidade de pressionar governos de esquerda na América Latina.

Trump continua com instrumentos importantes, como decisões sobre vistos, determinadas sanções e medidas diplomáticas. Muitas dessas ações podem ser tomadas pelo governo com base nas leis existentes, sem uma nova votação no Congresso. Deputados e senadores, porém, podem fiscalizar essas decisões, aprovar restrições e controlar os recursos disponíveis.
Com mais dificuldades para avançar na agenda interna, Trump poderá dar mais destaque à política externa para demonstrar força aos seus eleitores. Essa é uma possibilidade, não uma consequência automática da derrota nas urnas. Antes da eleição, a Casa Branca já preparava alternativas para governar por meio de poderes executivos caso os republicanos perdessem o Congresso.
Nesse cenário, Marco Rubio permanece como uma figura importante para a América Latina. O secretário de Estado já participou de medidas contra autoridades brasileiras. Em julho de 2025, o Departamento de Estado revogou os vistos de Alexandre de Moraes e de familiares imediatos. Uma mudança no controle do Congresso não desfaz automaticamente decisões desse tipo.
Rubio também aparece na disputa pela sucessão de Trump. Uma pesquisa da AtlasIntel divulgada em 1º de novembro o colocou com 45,6% entre os entrevistados que se identificam como republicanos, contra 32,9% do vice-presidente J. D. Vance. O resultado registra a preferência naquele levantamento e não permite apontar um favorito definitivo para 2028.
A situação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos também não depende de uma votação do Congresso. É preciso, porém, distinguir uma autorização para entrar e permanecer no país da concessão de asilo. São medidas diferentes, com regras e efeitos diferentes.
Também não é possível garantir que um futuro governo democrata recusaria um eventual pedido de extradição de integrantes da família Bolsonaro. O caso de Allan dos Santos não permite chegar a essa conclusão.
Durante o governo Biden, autoridades americanas informaram ao Brasil que não analisariam a extradição de Allan com base em crimes contra a honra, como calúnia, injúria e difamação, diante das diferenças entre a legislação dos dois países e das proteções à liberdade de expressão.
Ao mesmo tempo, indicaram a possibilidade de analisar outros fundamentos, como lavagem de dinheiro e organização criminosa, mediante informações adicionais. Portanto, essa posição não representou uma decisão geral de impedir sua extradição por qualquer motivo.
Isso significa que cada pedido precisa ser analisado separadamente. Nos Estados Unidos, o procedimento envolve a avaliação dos requisitos legais e uma decisão do Executivo sobre a entrega, quando autorizada judicialmente. O partido que ocupa a Casa Branca, sozinho, não determina o resultado.
A derrota republicana abre uma fase de maior fiscalização e negociação em Washington. A nova maioria democrata poderá impor obstáculos à agenda presidencial quando assumir, em janeiro de 2027. Trump, por sua vez, continuará com o poder de veto e com as atribuições do Executivo.
A eleição limitou parte de seu governo, mas não encerrou sua capacidade de agir no exterior. Para a esquerda latino-americana, a perda da maioria republicana no Congresso não oferece garantia de alívio nas relações com a Casa Branca.